Resenha: No Divã com Freud – Personagens da Literatura
Brasileira - vol. 1, de Luciano Diniz, parte de uma proposta ficcional
que aproxima duas tradições distintas: a psicanálise de Freud e personagens
fundamentais da literatura brasileira. O procedimento é simples em sua
estrutura, mas amplo nas possibilidades: cada personagem chega ao consultório
para ser escutado e, a partir desse encontro, seu conflito passa a ser
observado por uma perspectiva psicanalítica.
O livro se organiza em capítulos dedicados individualmente
às personagens. Capitu, Riobaldo, Macabéa, Brás Cubas, Fabiano, Sinhá Vitória,
Diadorim, Iracema, Macunaíma, Aurélia Camargo, João Grilo, Chicó, Pedro Bala,
Geni, Simão Bacamarte e outras figuras conhecidas da literatura brasileira atravessam
o consultório de Freud. A repetição desse formato dá unidade à obra, enquanto a
diversidade das personagens impede que as sessões se tornem uma sequência de
interpretações iguais.
A construção dos encontros se apoia principalmente no
diálogo. Freud pergunta, as personagens respondem, resistem, recordam e, pouco
a pouco, revelam aspectos que suas narrativas de origem permitem apenas
entrever. Riobaldo, por exemplo, transforma a questão do diabo em uma
investigação sobre responsabilidade e desejo; Macabéa conduz a conversa para a
própria dificuldade de reconhecer-se como existência. A psicanálise, nesse
sentido, não substitui as histórias originais, mas cria uma segunda
possibilidade de escutá-las.
Esse mecanismo também permite que conflitos individuais
ganhem dimensões mais amplas. Iracema deixa de ser apenas a personagem
submetida ao destino de seu romance para ser confrontada com a transformação de
sua própria identidade em símbolo. Geni, por outro caminho, evidencia a relação
entre julgamento social, desejo e necessidade de afeto. Em personagens como
essas, a sessão imaginária ultrapassa o indivíduo e alcança questões
relacionadas à violência, à exclusão, ao poder e à formação de uma identidade
brasileira.
Ao longo dos capítulos, fica evidente que Freud também é uma
personagem da própria experiência literária proposta pelo autor. Ele não apenas
interpreta: reage, se surpreende, confronta e, em alguns momentos, é obrigado a
rever sua posição diante daquilo que escuta. O consultório deixa de ser apenas
o lugar onde as personagens são examinadas e passa a funcionar como um espaço
de encontro entre diferentes formas de compreender o ser humano.
[Cláudia Brino]