CHORANDO RETICÊNCIAS, Cláudia Brino
a palavra voa
e o boato corre solto -
as esquinas
e
vai
longe.
de verdade
não sofre preconceito
sangue de barata
faltou-me
coragem de gente
grande
no pescoço
e cometer o ato
da ideia
do corpo
só sobra
em carne e osso
e a vida continua...
até a palavra
florescem
na mesma terra
que me enterra
troca-se pulseiras, pinos, etc...
na marca da carne,
na medida exata
das horas passadas.
com a espátula dos relógios
e deitou-se eternamente
na comodidade do ócio.
conversa fiada
com uma baita
de uma vara curta
pela ponta da vírgula
madrugada extática
se estendeu
com a lua de ontem
é um vestido
de estrofe inteira.
e
finalizado,
em nossa alma,
como segunda pele,
ao final de lê-lo.
Chorando reticências e escorrendo até Deus
Um livro para quem já chorou escondido ou em público. A obra, em terceira edição, aponta para a continuidade e para uma realidade que se estende sempre para adiante e desde o título: Chorando reticências, da autora Cláudia Brino, remete a partir da forma do gerúndio, a ideia da emoção transbordante e à flor da pele, simples e interminável como verso bem ritmado.
As reticências também colocam diante do leitor as possibilidades, a extensão do pensamento e o alongamento do que é dito e do que fica em suspenso, nas entrelinhas de cada poema vestido de infinito. São vinte e dois poemas curtos e os elementos e situações cotidianas servem de forma e de base para todos eles a partir dos títulos: A fome que devasta, a conversa corriqueira, A madrugada extática e que também se estende sobre o leitor, o passaporte entre vida e morte, a saudade, as coisas cotidianas de casal e os rompimentos.
A imagem da capa, que um dos prefaciadores não ousa interpretar, está entre o lenço e a máscara de repouso, objetos práticos, capazes de esconder e velar o que os olhos certamente deixariam transparecer. Essa promessa, no entanto não é cumprida. É a poesia funcional, básica, mas desnuda e transparente. É a realidade como origem, parindo no papel trivialidades iluminadas.
A marca da lágrima (aquela que diz tudo o que o fica nas entrelinhas da palavra) é a alma de toda a obra, desnudando e evidenciando, como diante do espelho, emoções partilhadas em um exercício de reconhecimento e diálogo com o leitor. A atuação do tempo (lenço para essas lágrimas derramadas, retomando a imagem da capa) é também profunda em sua marca, deixada na pele como tatuagem, contundente e perene até o momento da morte. Assim, ainda o silencio em seus poemas é o eu lírico mais possível e imponente, e é quem mostra e revela, anterior à lagrima, aquilo que pode ou não ser dito. Uma tríade eficiente e que costura os versos e as fraturas expostas por eles.
Uma obra repleta de simplicidade e clareza, com a incisão do bisturi verbal que faz escorrer o que a ideia não é capaz de abarcar. A poesia é íntima e filosófica, a palavra diária é quem faz refletir e voa, escapa até o inatingível, até alcançar o pensamento de Deus, além das alturas e da superfície das vírgulas e das reticências.
Uma poesia de carne e osso, passional, que se serve da metalinguagem, voltando sempre ao próprio verso, que, em estado de sonho, dormiu, e que de forma muito delicada e feminina, veste o poema de estrofe inteira, de morte e do indizível mais eloquente.
Seus textos são curtos e incisivos, roupas rompidas e incompletas que deixam a pele exposta e desnuda. Versos que ecoam até após a morte iminente e chegam a Deus como prece ou confissão íntima, deixando o cotidiano no altar e, aos pés da arte, o que há de mais belo e dolorido. Lágrima incapaz de se esconder. Enlevação e inspiração que vale a pena escorrer entre os dedos e pelos olhos.
Charlene França - escritora
